segunda-feira, 14 de maio de 2012

Não mais quis...


Eu fui divagando, sem andar, sem nada. Só divagando. Me surgiu uma dúvida universal, tal qual as de Horácio. Continuei divagando, vi que eu e você, a bem de toda a verdade, já não combinamos. Você aí, cidadã do mundo, eu aqui, camponês, sem falar inglês ( a rima foi gratuita). Vi que nem sentido mais eu fazia, nem teria. Que sentido, segundo o Quintana, só o de soldado mesmo. A poesia foi deixando de me salvar e fui me desvanecendo em cacos políticos de um dia de outono, do qual você também foi deixando de fazer parte. A tua loucura  não mais passou perto da minha janela, nem da minha orelha, nem do meu segredo de liquidificador. Passei a nem ter minha inspiração (era você quem a fazia surgir ou insurgir). Passei a repoetizar poesias que já havia lido, ou textos desconexos, reunidos todos em um só. Fui divagando e vi que que você fazia falta, que meu país não é do futuro, que envelhecemos mais do que a última geração, que a saudade é brusca e sem remédio. Fui enxergando dentro de mim e vi que não era bonito. Gárcia Márquez disse: Me dê um preconceito e moverei o mundo. É este preconceito que ainda me mantém vivo. Eu aprendi. E divago e quanto a você? Você só desistiu e se entregou ao capital da capital do mundo.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Centro de algum mundo


Havia iniquidade no ar. Havia choro e ranger de dentes. Havia quentura. Havia almas aflitas e desesperadas esperando uma salvação. Havia enganação e havia esperteza. Pobre corrompia a pobre e rico corrompia quem quer que fosse. Havia esgotos a céu aberto e havia um ar maciço a se respirar. havia tecnologia, da mais cara e havia quem não tivesse um pão. Havia rede social e nela, futilidades, fazendo frente ao que realmente importa. Havia a desculpa de que rede social era pura diversão, e o que não é? Alguém se lembra que miséria é lucrativa? Havia notícias de políticas públicas e havia pessoas dirigindo depois de uma ou várias cervejinhas, afinal, eu sei o que estou fazendo. Havia gente tentando salvar o que ainda resta e havia outro tanto ignorando isto. Havia crianças se prostituindo ou perdendo algum valor que lhe poderia restar. Havia crianças trabalhando e já sem infância. Havia gente com água quente a ser jogada em um animal. Havia gente com água quente a ser jogada em gente. Havia gente que pensava que era animal e havia animal que pensava ser gente. Havia todo tipo de aberração: sexual, religiosa, financeira, política, amorosa. Havia tudo. E não havia nada. Todos viviam ali, com a máxima de que era tudo belo. Não era belo. Neste mundo havia nascido Gandhi, mas neste mesmo mundo havia nascido Adolph. Neste mundo havia nascido Bush, mas também havia nascido Betinho. Poderia ser belo, o mundo, mas ele preferiu ser só mundo. Era lá que eu estava, onde havia tudo que contei e muito mais que infelizmente ou felizmente ainda não vi.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Orbis


Na pia do banheiro algo de cor diferente, na cabeça, falta de raciocínio lógico. No braço as marcas de anos de heroína, recém abandonada. Lava o rosto com a água gélida de outono paulista, começa abarbear-se com o ar de quem já foi rei. O tic tac do relógio surrado e o bate-rebate da navalha na pia produz a sinfonia daquela manhã. Gilberto tenta se concentrar. Precisa. A entrevista é somente às oito da manhã, ainda são cinco. Está aflito. Nunca mais tivera notícias da Carmem, nem muito menos da Marta. Termina o barbear, vai para a cozinha do pequeno apartamento, no centro, requentar o café de três dias. Toma uma golada inteira daquele café, mastiga um pedaço do pão ázimo de ontem, senta-se no sofá verde musgo. Ouve algumas batidas. Seria na sua porta? Segue-se algum silêncio, o relógio surrado parece aumentar de tamanho. Outras batidas. Não eram nada, eram no apartamento ao lado. Finalmente veste-se com seu traje puído e sai.
Na rua as pessoas já caminham para lá e para cá, tal qual formigas, com exceção do escrúpulo que não possuem.
Gilberto imprime uma caminhada insegura através do calçamento português escorregadio, em direção ao seu destino. Anda por exatos treze minutos. Não sabe por qual motivo, lembra-se ser época de Ramadã. Lembra-se de sua mãe e de sua terra. Permanece ali parado, de frente ao prédio suntuoso, na Praça João Mendes. A chuva não regride e parece querer absorvê-lo. Pergunta as horas a um senhor com cara de contador que passa por ele. São seis horas e oito minutos. Ainda resta pouco mais de uma hora para a entrevista, seu passaporte, talvez, para uma nova vida.
Olha atrás de si, o tribunal de justiça parece estar menor e as pessoas parecem estar maiores. Sente uma tontura. As pessoas estranhamente gigantes o olham perplexas. Ele já não sente as pernas. Já não sente mais nada, pois há exatamente uma hora e meia teria dado seu último suspiro de vida, no interior de um  apartamento sujo, no centro da cidade.

sábado, 28 de abril de 2012

Fábula do dilema curto



Arrastava sofregamente seu pé esquerdo. O pé esquerdo já o atormentava havia anos, pois era um tanto sistemático. Várias e várias tentativas de arrancá-lo foram frustradas. Aí, sem mais nem menos ele decidiu que seria destro (se dava bem com seu pé direito). O pé direito o tratava bem, não era arrastado e era até mais musculoso, por ser melhor tratado. Comprou um novo sapato direito e com pena, comprou também um sapato esquerdo, que foi muito bem recebido, e a partir daí foi que viveu feliz para sempre com seu pé esquerdo, sem nem mesmo arrastá-lo, pois ultimamente o canhoto também dera para ser feliz...

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Cansaço das horas tuas




Tem horas em que o coração cansa, mesmo sem querer descansar;
Tem horas em que tudo que era pertinente é apenas vão, é em vão;
E o valor das horas que eram tuas, passam por mim como ventos, sem destino e sem mais ilusão.


E sem valentia ou  impetuoso em excesso, não conto mais sentir;
Tem horas em que o mesmo cansaço me incute vontade, e o que era amor se faz irmandade;
Tem horas que o que era pertinente deixa-o de ser, fazendo-se sentir como lealdade.

E as horas tuas passam, sob meu olhar impedido de tocar;
E as horas minhas, misturam-se às tuas, sob teu olhar de enigma;
E tudo, neste cansaço das horas tuas: destino, ilusão, irmandade, lealdade e coração
                                                                              em vão, 
                                                                                    vão se perdendo, nos anos perdidos, que novamente, se vão,
 neste vão (do cansaço das horas tuas) sendo meu e teu destino, ilusão.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Cidade Imaginária


O homem tinha uma cara amassada parecida com a de um cachorro. O homem em questão estava com fome e fumava um cachimbo. O homem, ainda o mesmo para nós, não para ele, pedia silêncio, dentro do socorro que também pedia nos seus olhos. O homem, já não era mais homem, contudo, insistia em ser. O homem vivia em seu Auschwitz particular, bem ali, naquele Centro. Mas lá, não há Aliados. Ali não há Nazismo, nem muito menos judeus. Ali há uma África. E ali há um homem. Ali há até uma sociedade, secreta, onde todos são anônimos e não se conversam e nem se desejam bom dia.  Há também automóveis e pedestres, há também a sujeira interior de todo ser humano, unida, toda em um único quarteirão. Não é novidade o que vemos ali, nem para nós , nem para o homem. Há por toda aquela cidade uma ferida não-coagulada que sangra ao menor toque. Aquela cidade me parece ser imaginária, pois a cidade de verdade tem até nome de santo católico, portanto não pode ser assim.
O homem, ainda tinha sua cara  amassada parecida com a de um cachorro. O homem ainda insistia em sua psicose de viciado em ter esperança, mesmo que uma esperança surrada.
 Essa mesma esperança se coloria ora de cinza, ora de vermelho.
 Todos os domingos deste homem são sangrentos (bloody, bloody Sunday) mas ninguém se importou antes de sua cara ser amassada, portanto, por que se importaria agora? Logo agora: uma das maiores cidades do mundo, dentro de uma das maiores economias do mundo, economia esta forjada às custas destes que se perderam no país que anda de carro americanizado, em um trânsito burguês sem movimento, um país que já há tempos come McDonald's e bebe Coca Cola e um país que já teve alguma vontade de ser país, que já foi do futuro, mas que hoje só se preocupa consigo e não com os seus. O homem mais uma vez se deita, se entrega, e tenta fazer respirar do íntimo de sua cara amassada parecida com a de um cachorro, ao tomar um gole de resto de café, algo que ainda restou de sua alma de brasileiro.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Olhar castanho


Tinha um quê de quem espreita
e me espreitava, do fundo do olhar castanho de tempestade,
estava ali, no nicho dos dias, no colo do tempo, me esperava, doce

A voz era até um tanto rouca, sensual.
e me espreitava, do fundo do olhar castanho de tempestade,
estava ali sempre ao meu lado, no colo do vento, eu a esperava, azedo

Tinha um quê de confusa
e me espreitava, do fundo do olhar castanho de tempestade,
estava ali, sempre no nicho do meu coração, no colo do tempo, no colo do vento e eu a esperava com todo amor que não soube usar


A voz era sem melodia. Era a própria música.
e do fundo do olhar castanho de tempestade, ela me espreitava e me aguardava, mesmo que perdida na inconsciência dos dias.